mundo volátil

Tensões internacionais refletem uma disputa pelo poder global

*Por Tomás Bontempo – Diretor do Mestrado em Relações Internacionais da Universidade Del Salvador.

Tensões internacionais refletem uma disputa pelo poder global
(Crédito: Pascal Le Segretain/Getty Images)

Nas últimas duas décadas, surgiram diversos eventos que, em uma variedade de tensões em nível internacional, refletem uma disputa pelo poder global. Isso é denotado nos anos anteriores nas disputas sobre a guerra econômica e os desequilíbrios no processo de globalização, a pandemia de Covid-19 e, finalmente, a invasão da Ucrânia este ano: o mundo vive uma situação de múltiplas crises globais.

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Com o desenvolvimento da guerra que se iniciou este ano na Europa, as cadeias de abastecimento foram prejudicadas, há dificuldades crescentes no fornecimento de matérias-primas a ponto de afetar a produção de alimentos, vislumbra-se o aumento dos custos logísticos e um crescente processo inflacionário , especialmente nos preços de alimentos e energia, com as consequentes tensões no balanço de pagamentos.

Isso revelou como a interdependência se tornou uma questão de segurança no contexto de uma globalização lenta mais arriscada e onerosa e como algumas organizações internacionais, como a OTAN, ampliaram o foco e a visão da segurança para áreas como energia, comércio, migrações e área de informática, entre outros. Da mesma forma, neste quadro, a República Popular da China e a Federação Russa são consideradas como atores dispostos a corroer a ordem internacional baseada nos valores e regras do Atlantismo. A UE, através do seu representante para as relações externas, Joseph Borrel, destacou também a necessidade de a Europa se fortalecer militarmente e avançar para uma maior autonomia nos domínios da energia e da tecnologia.

Da mesma forma, em fevereiro deste ano, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, cujo país é o principal parceiro e ideólogo da OTAN em seu surgimento em 1949, no quadro da Guerra Fria, afirmou no Departamento de Estado que a China estava seu concorrente mais sério: “E também enfrentaremos diretamente os desafios colocados por nossa prosperidade, segurança e valores democráticos por nosso concorrente mais sério, a China”.

No caso da América Latina, esta tem sido uma região vulnerável aos impactos da ordem mundial. Nesse contexto, nossa região se apresenta, segundo a CEPAL, como uma região de baixo crescimento econômico e aumento da pobreza, desigualdade e endividamento, após as consequências sanitárias e econômicas da pandemia. Isso é complementado pela notória fragmentação e falta de coordenação nos países, especialmente na América do Sul, em um quadro de tensões entre os Estados Unidos e o avanço da China, com sua iniciativa global da Iniciativa do Cinturão e Rota.

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No entanto, os riscos crescentes de uma globalização mais arriscada, marcada pela incerteza geopolítica em um mundo de rivalidades e soma zero, exigem de nossa região maior diálogo, diálogo, posições conjuntas e respostas coordenadas. Para além da polarização política dos últimos anos, que levou ao abandono de alguns espaços associativos, a região caracterizou-se historicamente pela existência de normas e interesses comuns como a não intervenção, a resolução pacífica e a paz regional. Precisamente este último representa um valor indubitável no mundo de hoje.

A América Latina é uma zona de paz, e esta deveria ser justamente sua contribuição em um mundo com maiores desigualdades, crises alimentares e problemas em países emergentes, e onde, por outro lado, as grandes potências parecem inclinadas a uma maior securitização, maior gastos militares e primazia do geopolítico. A nossa zona de paz deve ser também o ponto de partida da nossa convergência de interesses.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

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*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.