Opinião

Gustavo Petro, um presidente inédito na Colômbia que buscará superar conflitos históricos

*Por Clarisa Demattei – Graduada em Ciência Política, professora da América Latina em Política Internacional e pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais (CEI-UCA).

Gustavo Petro, um presidente inédito na Colômbia que buscará superar conflitos históricos
Gustavo Petro (Crédito: Guillermo Legaria/Getty Images)

Quando Gustavo Petro tomou posse como presidente, a política na Colômbia não foi mais a mesma. Em primeiro lugar, porque pela primeira vez na história um líder de esquerda governa aquele país. Além disso, este novo período implica a chegada ao poder de Francia Márquez, a primeira vice-presidente afro-colombiana e, portanto, a suposição de uma fórmula que promete reformas estruturais nos campos social, cultural, ambiental, de gênero e de segurança.

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Mas, apesar de para grande parte da opinião pública a chegada de Petro à Casa de Nariño abre um período sem precedentes, o novo presidente terá que enfrentar problemas graves e estruturais, alguns dos quais com mais de 60 anos.

Um deles, e talvez o mais complexo de todos, é a violência guerrilheira e paramilitar que ainda atormenta o país. Embora os Acordos de Paz com as FARC, o maior grupo insurgente da América Latina, tenham gerado uma queda significativa nos níveis de violência, isso não significa que o conflito armado tenha cessado. Mesmo uma facção importante das FARC, composta por 5.000 soldados, não aceitou os Acordos de Paz de 2016 e fundou uma facção separada chamada “dissidentes das FARC”. No início do mês, de forma inédita, o grupo anunciou que estava disposto a iniciar um processo de diálogo com o governo de Petro e Márquez.

No entanto, os dissidentes não são o único grupo guerrilheiro ativo no país. Além do ELN, que tem forte presença no norte ocidental, e do grupo paramilitar El Clan del Golfo, as próprias FARC continuam atuando em alguns setores do interior do país depois de denunciar que o governo Duque não cumpriu sua parte do acordo.

Segundo estimativas da Cruz Vermelha Internacional, somente em 2022, mais de 480 pessoas morreram e 53.000 pessoas foram deslocadas de seu local de origem como resultado do conflito armado. Por mais de 60 anos, a Colômbia foi o país com o maior número de deslocados internos do mundo, atualmente só superado pela Ucrânia em decorrência da invasão sofrida em seu território desde fevereiro.

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A violência da guerrilha representa um desafio em vários níveis para o próximo governo. Em primeiro lugar, sua ideologia esquerdista levanta uma questão sobre qual relação ele terá com esses grupos armados. Qual será o discurso de Gustavo Petro e como ele será diferente de todos os presidentes anteriores de direita? Mas, ao mesmo tempo, caso o novo governo tenha que militarizar certas áreas do interior do país, sua ideologia de esquerda não limitará suas ações de defesa e segurança?

O fator venezuelano

A realidade guerrilheira colombiana não é um problema que se limita ao território interno deste país, mas transcende suas fronteiras, especialmente em direção à Venezuela. Em várias ocasiões, o presidente cessante Iván Duque denunciou com firmeza que grupos ilegais, que também incluem cartéis de drogas, sobrevivem graças ao financiamento do governo de Nicolás Maduro. Portanto, controlar a violência guerrilheira não significa apenas devolver finalmente a paz e a estabilidade à sociedade colombiana, mas também determinar o futuro do vínculo com a Venezuela em um momento crucial, pois a chegada de Petro ao poder pode significar o retorno das relações diplomáticas entre os dois países , interrompido desde 2019.

Mas a história comum e os mais de 2.200 quilômetros de fronteira não são os únicos elos que hoje unem os governos da Colômbia e da Venezuela. Por mais de quinze anos, a Colômbia tem sido o principal destino dos cidadãos venezuelanos que fogem de seu país. Quando Petro chegar à Casa de Nariño, terá que enfrentar a crise migratória e humanitária mais importante da história da região, já que quase 2 milhões de venezuelanos residem em seu país, metade deles indocumentados. E ao contrário de muitos líderes americanos que, influenciados por um clima de xenofobia, decidem expulsar os imigrantes e devolvê-los às suas complexas condições de vida, as decisões de Petro não serão tão simples.

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Escolher o caminho da deportação o deixaria em uma posição muito pobre em relação a outros líderes progressistas do continente, enquanto não tomar nenhuma decisão significaria continuar sujeitando os venezuelanos a enormes desigualdades no território colombiano. Mas aprofundar o Estatuto Temporário de Proteção aos Migrantes Venezuelanos (ETPMV) significaria continuar com a política migratória de Iván Duque e, paralelamente, enfrentar seu colega Nicolás Maduro, que rejeita sistematicamente a existência de uma diáspora bolivariana.

Internamente, os desafios também não são fáceis. Em termos institucionais, a relação de Petro com o Congresso será uma das grandes questões que marcarão seu governo. Embora nunca antes na história a esquerda tenha tido tantos assentos como agora, os atuais legisladores pró-governo não chegam a 33% dos assentos. Isso levou Petro a negociar com outros blocos e conseguir uma coalizão tão multipartidária que chega a conter partidos de centro-direita, em situação semelhante à de Duque quando assumiu o cargo com 19% do Congresso.

Manter unida uma coalizão ideologicamente heterogênea será um grande desafio para o presidente, especialmente em um contexto de polarização e fragmentação partidária como o que a Colômbia vive atualmente. Sabemos que durante o período de “lua de mel” os incentivos para apoiar o presidente serão maiores, mas resta saber o que acontecerá quando houver divergências dentro da coalizão em relação às reformas estruturais propostas pelo chefe de Estado. Paradoxalmente, especificar ou não essas mudanças substanciais dependerá quase que exclusivamente da aprovação do Congresso.

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Expectativa e incerteza

A chegada de Petro à presidência tem a mesma parcela de expectativa e incerteza. Para grande parte da opinião pública, este fim de semana assume um líder diferente que nos permite abandonar o uribismo que caracterizou a política colombiana desde o início do século XXI. Mas para outros, a figura de Petro desperta medo e incerteza.

Nesse contexto nos perguntamos, qual versão do presidente prevalecerá? O moderado que surgiu durante a campanha presidencial ou o ex-guerrilheiro que se desmobilizou há 30 anos? O conciliador ou aquele que quer gerar transformações estruturais? A que precisa de acordo com outras forças políticas ou a que vai governar pelo seu núcleo duro?

Se basearmos nossa análise na composição de seu gabinete, saberemos pouco sobre ele. Entre seus funcionários estão ministros centristas e tradicionais, como José Antonio Ocampo, que estará à frente da pasta do Tesouro que já se manifestou a favor da redução dos gastos públicos e da contenção fiscal.

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No entanto, a chegada de outras figuras controversas, como Iván Velázquez na Defesa, também causou um terremoto político, especialmente em setores da oposição devido à sua inimizade explícita com o ex-presidente Uribe. Velázquez terá em suas mãos, entre outras funções, a decisão sobre o futuro da polícia e do exército colombianos no contexto de um conflito armado que parece não ter fim.

Petro recebe um país com um presente delicado. Somam-se aos problemas políticos e institucionais os conflitos sociais que incluem 40% dos colombianos vivendo na pobreza, 11% desempregados e 30% da população trabalhando informalmente. A distância entre ricos e pobres está aumentando e atualmente é o terceiro país mais desigual da região. No entanto, neste domingo uma nova era se abre e toda a América Latina estará assistindo.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.