Conflito nuclear

77 anos após o horror de Hiroshima e Nagasaki

*Por Martín Balza – Ex-Chefe do Exército Argentino. Veterano da Guerra das Malvinas e ex-embaixador na Colômbia e Costa Rica.

77 anos após o horror de Hiroshima e Nagasaki
Fotografia da bomba atômica lançada em Nagasaki, Japão (Crédito: U.S. Forces/Handout from Nagasaki Bomb Museum/Getty Images)

Há setenta e sete anos, ocorreu o maior massacre contra a humanidade perpetrado durante o bem qualificado XX, “Século da Destruição”. Em 7 de maio de 1945, a Segunda Guerra Mundial terminou na Europa. Pouco antes já se vislumbrava que a derrota do Japão era iminente. No entanto, em 5 de agosto, a Base Aérea de Tinian, no Pacífico, recebeu uma ordem do presidente dos EUA, Harry S. Truman: “Amanhã prossiga como planejado”. Ninguém poderia imaginar as consequências dessa frase concisa.

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Na madrugada de segunda-feira, 6 de agosto, a tripulação do bombardeiro quadrimotor denominado Fortaleza Voadora B-29 se preparou para cumprir sua trágica missão; o comandante era o tenente-coronel Paul W. Tibbets, que dera à máquina o nome de sua mãe, Enola Gay. O artefato letal que carregava chamava-se Little Boy (menino), era uma bomba nuclear com potência equivalente a 20 mil toneladas de Trinitrotolueno (TNT). O objetivo não era militar, mas a cidade japonesa de Hiroshima (400 mil habitantes e 900 km2 de superfície).

“Muitos dizem que o Japão teria se rendido do mesmo jeito sem usar bombas nucleares”

Às 08h15, o alerta do B-29 disparou o gatilho sobre a população que se preparava para iniciar suas atividades matinais. Quarenta e três segundos depois, bolas de fogo ardiam sobre a cidade desprotegida e indefesa. Voltando à base Tinian, os membros da tripulação do Enola Gay foram recebidos como heróis.

Segundo versões, a destruição da cidade foi quase total, trens e bondes explodiram, carros derreteram e milhares de casas desapareceram. Os mortos inicialmente foram calculados em 80.000 e os residuais em 50.000. Sobre o cruel massacre, no mesmo dia em Washington, Truman fez uma declaração pública e, entre outras coisas, disse: “Há dezesseis horas, um avião americano lançou uma bomba na importante cidade japonesa de Hiroshima. Tinha mais de duas mil vezes o poder explosivo do ‘Grand Slam’ britânico, que é a maior bomba já usada na história da guerra. É uma bomba atômica. É a subjugação do poder básico do universo. A energia da qual o sol extrai sua força”.

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Na madrugada de 9 de agosto de 1945, às 11 horas, outro B-29 chamado Bock’s Car, comandado pelo Major Charles W. Sweeney, lançou sobre a cidade de Nagasaki, com uma população de 300.000 habitantes, outra bomba nuclear de 21 quilotons (21 mil toneladas de TNT), apelidado de Fat Man (homem gordo). As vítimas fatais foram estimadas em mais de 80.000 pessoas, incluindo onze prisioneiros de guerra americanos. As cenas dantescas do que acontecera em Hiroshima três dias antes foram repetidas.

O Japão se rendeu em 14 de agosto, e a cerimônia de rendição, presidida pelo general Douglas MacArthur, foi realizada no encouraçado USS Missouri na Baía de Tóquio em 2 de setembro de 1945. Depois de seis anos e um dia, a Segunda Guerra Mundial havia terminado. A este respeito, o general britânico John F.C. Fuller disse: “A guerra no Extremo Oriente, assim como na Europa, foi travada, foi alegado, pelas potências aliadas ocidentais, em nome da justiça, humanidade e cristianismo, mas foi vencida por meios que davam aspectos mongóis à guerra e com ela ‘mongolizaram’ a paz” (La Segunda Guerra Mundial, Ed. Rioplatense, p. 522).

É interessante notar as opiniões de americanos proeminentes sobre o uso de armas nucleares. O general Henry H. Arnold declarou: “Mesmo antes da bomba atômica ser lançada sobre Hiroshima, a situação no Japão era desesperadora” (Terceiro Relatório, 12/11/45). Almirante Chester Nimitz: “Atribui a capitulação do Japão diretamente à perda de navios mercantes” (Relatório sobre Bombardeio no Japão, 7/10/45, p. 1). Bernard Brodie – descrito por alguns como um discípulo de Carl von Clausewitz – declarou: “O Japão foi completamente derrotado do ponto de vista estratégico antes que as bombas atômicas fossem usadas contra ele” (The Absolute Weapon: Atomic Power and World Order, 1946, p. . .92).

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No Japão como um todo, as perdas e fracassos militares como os de Saipan, Filipinas e Okinawa foram duas vezes mais importantes que as bombas atômicas para induzir a certeza da derrota; não poucos dizem que o Japão teria se rendido mesmo que as armas nucleares não tivessem sido usadas. A decisão de Truman foi um erro moral e ele nunca se arrependeu. Em 7 de agosto de 1945, o diário da Cidade do Vaticano, L’Osservatore Romano, noticiou: “A humanidade deu preferência ao ódio e inventou instrumentos de ódio. Havia uma competição cada vez mais destrutiva na terra, na água e no ar, convocando para isso todos os dons espirituais e materiais dispensados ​​por Deus. Esta guerra fornece uma conclusão catastrófica. Por incrível que seja, essa arma destrutiva continua sendo uma tentação para a posteridade, que, sabemos por amarga experiência, aprende muito pouco com a história.”

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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