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Um mundo com dois modelos de liderança

Por um lado, um bloco de países liderado pelos Estados Unidos que se expande com a esfera da OTAN. Por outro lado, um novo espaço regional na Ásia-Pacífico, com eixo na China e todas as suas organizações regionais

Um mundo com dois modelos de liderança
(Crédito: Robert Laberge/Getty Images)

A configuração do mundo atual enfrenta dois modelos que constituem um mundo heterogêneo, nas palavras de Raymond Aron. Por um lado, um bloco de países liderado pelos Estados Unidos que se expande com a esfera da OTAN. Por outro lado, um novo espaço regional na Ásia-Pacífico, com eixo na China e todas as suas organizações regionais. Cada um tenta influenciar o resto do mundo com suas características sistêmicas sustentadas por diferentes paradigmas e ideologias.

O primeiro bloco tem seu início na crise do Estado de bem-estar social keynesiano-fordista dos anos 1970, que levou ao abandono do sistema monetário de Bretton Woods e da conversibilidade do dólar. Para superar essa crise, arquitetou-se uma saída do Estado fordista, dando lugar à “revolução” conservadora e neoliberal de Reagan e Thatcher. Começou a ser estruturado um Estado mínimo para “regular” o novo capitalismo informático global, criando a sociedade da informação fundamentada na economia do conhecimento.

Esta nova fase do capitalismo financeiro e informático foi liderada pelas empresas transnacionais e marcada pelo abandono da regulamentação bancária do capital financeiro para a formação de fundos de investimento. O capitalismo líquido consolidou-se e começou a criar uma economia focada no negócio do dinheiro, sem qualquer aplicação nos processos de produção real e com escandalosos níveis de concentração. Virou-se para o consumo massivo de produtos de informática, a eletromedicina e o fortalecimento do complexo militar.

O segundo bloco coincide no tempo, mas não na forma. Também na década de 1970, com a morte de Mao Zedong em 1978, Deng Xiaoping assumiu o poder e deu início a uma série de reformas de abertura, equilibrada com a regulamentação do capital. Foram postos em marcha os pilares da nova potência, sob o conceito de “Um país, dois sistemas”. Essa afirmação não se dirigiu apenas às negociações com Hong Kong, mas instalou as diretrizes centrais do novo desenvolvimentismo estadocêntrico. Assim se manifestou Deng: “Ao abrir um conjunto de cidades no continente, deixaremos entrar algum capital estrangeiro, que servirá de suplemento à economia socialista e ajudará a promover o desenvolvimento das forças produtivas socialistas. Por exemplo, quando o capital estrangeiro é investido em Xangai, isso certamente não significa que toda a cidade se tenha tornado capitalista. O mesmo vale para Shenzhen, onde o socialismo ainda prevalece. A maior parte da China continua sendo socialista”.

Deste lado do mundo, o resultado da revolução da informação foi orientado para outros consumos, como a educação tecnológica em massa, a computação quântica, as energias limpas, os transportes por levitação magnética, o 5G, e outros.

Em relação ao Estado, gerou-se uma centralidade da sua ação como regulador e distribuidor de benefícios, sem sufocar a sua reprodução e dando garantias de investimento estrutural de longo prazo.

A crise financeira de 2008 evidenciou a fragilidade do primeiro bloco, pois as consequências da falta de regulação do capital financeiro foram observadas em dois sentidos: na impossibilidade de direcioná-lo aos setores produtivos e na falta de tributação, o que subfinanciava os países e gerava déficits fiscais e endividamento. Aliás, isso veio casado com a disputa sobre quem deveria sustentar esse déficit, se cabia aos setores empresariais ou aos consumidores.

Chegamos, na atualidade, a um cenário pós-neoliberal, onde os dois blocos lutam para manter os seus modelos. O desafio para os países periféricos – como a Argentina – é escolher qual padrão de inserção internacional devemos traçar. Embora a equidistância estrutural que propomos anteriormente seja uma solução dado o pano de fundo da geopolítica, há, em última análise, uma desafiadora intimação de conteúdo ético e social que anda de mãos dadas com uma questão ainda não resolvida: que modelo de desenvolvimento queremos?

*Por Juan Pablo Laporte – Cientista político e doutor em Ciências Sociais. Professor e pesquisador da Universidade de Buenos Aires.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Perfil Brasil.

*Texto publicado originalmente no site Perfil Argentina.

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